INTRODUÇÃO

Século XVII, período escravocrata, a Capoeira nasce no Brasil no seio da população negra, escravizada ou descendente de escravizados e se desenvolve como um modo de sociabilidade e solidariedade, uma estratégia social para lidar com o controle e com a violência. Depois de dois séculos de lutas, em 13 de maio de 1888, a escravatura é, ao menos oficialmente, abolida. Contudo, menos de dois anos após a abolição, a Capoeira, rotulada preconceituosamente como atividade da laia mais baixa da sociedade e, por isso, pejorativamente estigmada se vê proibida por lei no primeiro Código Penal da República (Decreto Nº 847, de 11 de outubro de 1890).

Só com o Estado Novo, na década de 1930, veio a descriminalização (efetivada após exclusão da criminalidade no novo Código Penal de 1940). No projeto nacionalista da era Vargas os elementos da cultura negra foram apropriados pelo discurso e práticas oficiais a fim de construir uma imagem unificada de identidade nacional. Conforme Conde (2007), nesse período o “‘samba de preto’ passa a ser o ‘samba de minha terra’ e a Capoeira ganha novo estatuto, sendo definida pelo próprio Getúlio Vargas como a única colaboração autenticamente brasileira à educação física”.

Passado mais meio século, a Capoeira se firma, finalmente, como ferramenta educacional, mantendo compromisso político de lutar contra as desigualdades, sejam elas étnicas, religiosas ou de gênero. Nas aulas de Capoeira, encontram-se pessoas de diversas faixas etárias, pesos, gêneros... O ethos da Capoeira encoraja uma educação inclusiva e democrática.

Nesses três parágrafos iniciais, resumiu-se muito concisamente a história da Capoeira, revelando basicamente como a elite branca reagiu diante dessa manifestação cultural ao longo da nossa história recente, com propósito excluiu-se praticamente toda a história da luta negra no Brasil, para que se possa entender como o discurso elitista se fixa no senso comum. É em oposição a consolidação desse discurso que se justifica a proposta de vivenciar e praticar a Capoeira.

Neste sentido, o projeto de extensão Capoeira Contemporânea: Vivência e Práticas Básicas se inicia, em 2016, visando ofertar, exatamente, vivência e prática da Capoeira e (indo de encontro a Lei Nº 11.645, de 10 de março de 2008, que se refere à inclusão da temática “História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena” nos currículos oficiais das redes públicas de ensino) pretende oportunizar para os participantes: o desenvolvimento das inteligências múltiplas psicomotoras; o desenvolvimento físico, intelectual e moral;  a possibilidade de mudanças comportamentais; o cultivo do convívio social; o restabelecer da estabilidade emocional; o fortalecer dos vínculos familiares; a formação novos hábitos; a garantia de acesso a direitos básicos e, sobretudo, a promoção de conhecimentos históricos e a transmissão de valores culturais.